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12 maio 2016
De amores que não sabem amar
Não dormi, preferi ficar te olhando. É que a constelação de pintas nas suas costas me encanta e a sua calma sempre me acalmou. Enquanto te olhava e as luzes da noite da cidade lá fora adentravam o flat, eu pensava em nós e no que de fato estamos fazendo.
Eu sei que pela manhã você vai acordar mais cedo do que eu pra cortar a cidade e ir ao trabalho, vai deixar o café pronto na cafeteira e me deixar um bilhete de bom dia. Eu guardo todos os bilhetes - todos os dias - ou pelo menos guardava. É que talvez eu nem o leia amanhã e quem sabe eu também não tome o café. É que essa sua forma de me iludir e me comprar com gestos baratos e corriqueiros não me encanta mais. Esses seus artifícios para se fazer presente quando a ausência é a única coisa que tenho de ti. É que a gente sabe, você sempre foi mais do mundo do que meu.
Parece que só somos um em quatro paredes, sem barulho de buzina, sem o trânsito, sem os esbarrões, sem as decisões no escritório, sem as festas de família, sem essa insanidade - necessária - que é a vida. Veja bem, nesse tempo - que eu julgo ser 1 ano e você a 1ª noite - você nunca me apresentou aos seus amigos. Me dê razão, as coisas não andam tão bem, ao menos pra mim.
Eu posso ter curtido isso por um tempo, esse jogo descompromissado de quem pouco quer quando na verdade quer demais, mas talvez eu não tenha mais idade pra isso. Talvez eu tenha entendido que intimidade é dividir a vida e não só o corpo. Eu não quero alguém que seja comigo na cama, nas conversas filosóficas pós-sexo, na mesa ou no bilhete de bom dia pela manhã. Eu quero alguém que sente comigo e me pergunte do dia. Quero alguém pra contar a grosseria que o motorista fez pela manhã, a música que ouvi na rádio, falar do trânsito que me atrasou. Quero chegar em casa cansada e não ser ouvida. Isso. Não ser ouvida. Porque a maior prova de amor (ou qualquer coisa assim) talvez seja aqueles olhos que pouco querem saber da história, mas permanecem ali. Quero alguém que conheça meus defeitos, que tenha todos os motivos para ir embora, mas decida ficar. Alguém que divida um mundo, onde ceder é um ato de amor e não a única coisa que se sabe sobre ele. Onde os sorrisos sejam maiores que as lágrimas e o desespero de não sermos até a 00:00h não exista. Eu quero o conforto das diferenças que se unem, não as que brigam a todo momento. Eu quero saúde! E que venha não só numa taça de vinho a dois. Quero saúde no brinde da vida. Uma vida que vá pela manhã, mas que no lugar do café pronto e do bilhete, deixe a alma compartilhada.
Eu não sei se você está me entendendo ou se tá achando tudo um percalço sem nó, mas eu resolvi te deixar, antes que eu me acostumasse a caminhar só. Foi por cansaço. Eu cansei de esperar pela próxima vez, cansei de racionalizar meus choros, meus desconfortos, me forçando acreditar que nunca mais aconteceria. Eu cansei de fingir pra mim mesma que isso daria certo e que o amor ultrapassa tudo. É que ao contrário dessa máxima falado em todos os filmes de romance, eu aprendi que nem todo amor sabe amar. A começar pelo meu.
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Crônicas e Contos
08 setembro 2015
Faces e fases
Me seduziu até o momento em que você trocou a peça. Mudou os personagens, o figurino e seguiu um roteiro onde o papel de protagonista já estava ocupado: era seu. Talvez desde o princípio fosse assim, e eu me metia como coadjuvante achando que isso poderia ter alguma importância ou que a minha promoção não tardaria. Mas tudo sempre se resumiu a você.
Foi difícil desencarnar o papel. Foi difícil deixar os trejeitos de cada pessoa que vivia aqui. E foi só quando me vi livre das muitas faces que, enfim, me vi livre de você e pude me perceber. Você ocupava um lugar tão grande em mim que eu quase tive que me forçar a acreditar que existia um "eu" além de você e que no fundo ainda poderia haver algum espaço onde você não tinha invadido.
Não te culpo por isso, na verdade, culpo sim. Isso tudo me levou a 3 panelas de brigadeiro por semana mais a conta do analista. Mas o que eu quero dizer é que não foi só você que me machucou, eu fiz isso comigo mesma. De insegura pensei em me preencher com alguém, depositei minha felicidade sobre as suas costas e isso foi a coisa mais egoísta que pude fazer. Você pode chamar de carência, imaturidade ou qualquer coisa assim, eu quis me achar me procurando em outro alguém e, veja só, não foi bem isso que encontrei. Tentei achar atalhos quando o único caminho que eu precisava trilhar era o meu, e só.
Eu resolvi escrever tudo isso quando meu whats apitou. Era uma mensagem sua dizendo que ainda me amava. E seja lá o que você quis dizer com a mensagem eu quero te dizer que nunca foi amor. Pode ter sido dependência, paixão ou um desejo masoquista, mas amor... Ah, meu bem isso nunca foi. O amor é imune de obrigação, de ciúmes, de reservas. O amor não te exige nada em troca, ele só ama. Pelo que se é e não pelo que se deveria ser. Ele não é dependente, ele coopera. Não há amor de duas partes, o amor vive num par de inteiros. E eu quero te agradecer por ter me tirado de cena e ter seguido a peça sem mim. Espero que um dia você se encontre e não precise mais do palco. Eu to bem, não tenho mais tempo de atuar, para ninguém e por ninguém. Estou muito ocupada sendo eu mesma.
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Crônicas e Contos
06 maio 2015
Se eu não tivesse te deixado ir
Eu sei que isso
é egoísta, fui eu quem quis ir, eu quis te soltar. Eu nem sei se o verbo “querer”
está bem colocado, afinal, o que eu queria mesmo era ter você, um cachorro e
uma vida inteira. Talvez “eu-não-fazia-ideia-do-que-estávamos-fazendo”, se é
que isso pode ser considerado um verbo, se encaixaria melhor.
Eu me rendi
as rotas da minha mente pessimista e jurei que não conseguiríamos nem passar da
próxima esquina. Mesmo com você me chamando, mesmo com você me segurando. Não foi falta de confiança em
você, foi falta de confiança em mim. E agora eu fico aqui, imaginando como
seria. Como seria acordar ao seu lado, como seria dividir as contas do mês...Ah
que falta eu sinto de nós, dos nossos laços, das danças no meio da sala, de
morar no seu abraço. Quem sabe a gente construía um mundo nosso onde as nossas
diferenças não fossem tão gritantes? Quem sabe, a gente ligava o “foda-se” e
fugia pra qualquer lugar, pro Havaí ou pro seu quarto? Mas eu não quis pagar
pra ver, eu sou pé no chão demais pra voar com você. Você tinha asas e eu fazia
questão de podar as minhas todos os dias.
Queria te
encontrar. Em qualquer lugar por aí, só pra esbarrar, pra te encarar. Pra quem
sabe ver no seu olhar um motivo pra ficar, me entregar, voar.
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Crônicas e Contos
24 abril 2015
Nós nunca existimos
A cada hora que eu passo trancada dentro do quarto, imagino com quantas você já foi pra cama. A cada lágrima que cai do meu rosto fazendo uma pequena poça ridícula no travesseiro, eu sinto raiva. Não raiva de você, isso não é novo pra mim. É uma raiva estampada de inveja por você conseguir fingir que nada aconteceu. Não que eu fosse transar com meio-mundo, eu e você sabemos que isso não ia rolar, mas eu só queria ter essa mesma cara de pau de fingir que nós não acontecemos. Isso seria ótimo! Isso seria melhor do que estar no terceiro pote de nutella.
Eu sei que é meio demodé essa coisa de sofrer por amor e disso ser culturalmente atribuído ao gênero feminino, mas eu não quero culpar a sociedade ou os meus pais por me fazerem acreditar em um príncipe ou por eu estar aqui há 12 horas quase tendo uma overdose de nutella. Fico pensando como seria o caso clínico e o que o médico falaria quando eu chegasse ao hospital. "Overdose" de que? "De amor."
É isso, eu te amo demais pra te deixar. Eu sei que tem aquela história bonita de que quando a gente ama a gente deixa ir, e o que é nosso volta, bla, bla, bla. Fico pensando quantas vezes Bob Marley foi chifrado pra escrever isso, coitado, eu também desistiria se fosse ele. Mas como eu não sou, tô aqui ferrada, tentando imaginar o que eu faço com tudo que sobrou. Fico pensando nas lembranças que insistem em me invadir, sem pedir licença e por pura sacanagem só me trazem as coisas boas. Ele era idiota pra cacete! Vai, garota, lembra disso. Lembra que ele nunca era ele com você, que na frente dos amigos ele parecia caçoar de todas as coisas que você dizia, como se você fosse a menina ingênua que não tem experiência da vida. Lembra que você era sempre segunda opção diante do ego dele, lembra que, que... Que aquele corte de cabelo era ridículo, que aquele sorriso era lindo, mas não era seu, nunca foi. Pronto, lembrei dos defeitos, ou só daqueles que minha mente me permitiu lembrar, e aí? E agora? Ainda dói. Não valeu de nada.
Nós dois sabíamos que o término seria inevitável, a gente discutia sempre e quando não, eu sempre tinha que ceder e engolir meu orgulho. Sempre eu. E olha, eu nem sei por que a gente insistiu, talvez porque eu gostasse da sua família, apesar de você ser um filho da mãe, a sua mãe é a melhor pessoa que eu já conheci na vida. Ou porque você achava que me amava, eu digo achava porque ninguém sente uma coisa e faz outra e você fazia tudo, meu bem, menos demonstrar amor.
Com o tempo eu vou me conformar, vai passar. E essa é a minha única certeza agora. Mas eu queria te perguntar como é que você faz pra fingir que a gente não se conheceu? Fingir que não foi nada. Como é que você consegue passar pela sorveteria da esquina, pedir flocos com cobertura de hortelã e não lembrar de mim e de que eu te ensinei a gostar desse sabor? Lembra que foi eu que te ensinei o sabor de muitas coisas, quem sabe até da vida? Será que ao beijar outra você não lembra de como nosso beijo se encaixava perfeitamente? Me fala, por favor, me fala! O que você fez com a aliança? Ou melhor, como você se desfez dela? Numa daquelas cenas dramáticas ao mar? Simplesmente jogou no lixo? Ou quem sabe ainda usa por aí? A minha tá aqui, na cabeceira, me encarando, me encarando com todas as promessas que com ela foram feitas. Meu bem, por favor, me diz como você faz pra fingir que a gente não existiu? Talvez seja isso. Nós nunca existimos, fui eu, eu que nos inventei.
Eu sei que é meio demodé essa coisa de sofrer por amor e disso ser culturalmente atribuído ao gênero feminino, mas eu não quero culpar a sociedade ou os meus pais por me fazerem acreditar em um príncipe ou por eu estar aqui há 12 horas quase tendo uma overdose de nutella. Fico pensando como seria o caso clínico e o que o médico falaria quando eu chegasse ao hospital. "Overdose" de que? "De amor."
É isso, eu te amo demais pra te deixar. Eu sei que tem aquela história bonita de que quando a gente ama a gente deixa ir, e o que é nosso volta, bla, bla, bla. Fico pensando quantas vezes Bob Marley foi chifrado pra escrever isso, coitado, eu também desistiria se fosse ele. Mas como eu não sou, tô aqui ferrada, tentando imaginar o que eu faço com tudo que sobrou. Fico pensando nas lembranças que insistem em me invadir, sem pedir licença e por pura sacanagem só me trazem as coisas boas. Ele era idiota pra cacete! Vai, garota, lembra disso. Lembra que ele nunca era ele com você, que na frente dos amigos ele parecia caçoar de todas as coisas que você dizia, como se você fosse a menina ingênua que não tem experiência da vida. Lembra que você era sempre segunda opção diante do ego dele, lembra que, que... Que aquele corte de cabelo era ridículo, que aquele sorriso era lindo, mas não era seu, nunca foi. Pronto, lembrei dos defeitos, ou só daqueles que minha mente me permitiu lembrar, e aí? E agora? Ainda dói. Não valeu de nada.
Nós dois sabíamos que o término seria inevitável, a gente discutia sempre e quando não, eu sempre tinha que ceder e engolir meu orgulho. Sempre eu. E olha, eu nem sei por que a gente insistiu, talvez porque eu gostasse da sua família, apesar de você ser um filho da mãe, a sua mãe é a melhor pessoa que eu já conheci na vida. Ou porque você achava que me amava, eu digo achava porque ninguém sente uma coisa e faz outra e você fazia tudo, meu bem, menos demonstrar amor.
Com o tempo eu vou me conformar, vai passar. E essa é a minha única certeza agora. Mas eu queria te perguntar como é que você faz pra fingir que a gente não se conheceu? Fingir que não foi nada. Como é que você consegue passar pela sorveteria da esquina, pedir flocos com cobertura de hortelã e não lembrar de mim e de que eu te ensinei a gostar desse sabor? Lembra que foi eu que te ensinei o sabor de muitas coisas, quem sabe até da vida? Será que ao beijar outra você não lembra de como nosso beijo se encaixava perfeitamente? Me fala, por favor, me fala! O que você fez com a aliança? Ou melhor, como você se desfez dela? Numa daquelas cenas dramáticas ao mar? Simplesmente jogou no lixo? Ou quem sabe ainda usa por aí? A minha tá aqui, na cabeceira, me encarando, me encarando com todas as promessas que com ela foram feitas. Meu bem, por favor, me diz como você faz pra fingir que a gente não existiu? Talvez seja isso. Nós nunca existimos, fui eu, eu que nos inventei.
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Crônicas e Contos
08 março 2015
Escolhi partir. Sem contrarregra. Sem tape.
Eu, por exemplo, escolhi partir. Você vai me chamar de covarde e talvez eu seja, desperdicei a chance mais próxima de ser feliz que já tive. Mas se é que posso dizer algo em minha defesa, fica difícil ter coragem sem os olhos azuis da Cameron. Acontece que eu não me arrependi logo em seguida ( talvez um pouco, tá bom, bastante), desci do táxi, voltei correndo e me joguei nos braços dele enquanto ele me suspendia no ar e me beijava docemente. Não pense isso, por favor, nem Nicholas Sparks seria tão previsível. Olha, eu nem tava de táxi. Na verdade eu estava a pé, estava chuvendo e eu tinha acabado de comprar um pão doce. Viu só? Nada romântico ou digno de Oscar. Eu escolhi partir na padaria, e não era aquelas super docerias americanas ou o Central Perk, era dessas comuns mesmo que o dono tá ali desde que você nasceu e que com R$1,00 você compra só 4 pães massentos.
Eu escolhi partir quando me deparei num sábado à noite de chinelo e moleton indo comprar pão doce e você não estava lá pra fazer a piada sem graça com o sonho, mas que eu sempre rio. Eu escolhi partir quando entendi que sua vida seguia um ritmo diferente da minha e que por vezes você se negava por mim. Você nunca me disse isso, mas também nem precisava. No começo você se saiu bem, juro que não percebia que aquilo tudo era um fardo, mas com o tempo eu passei a ver nos seus olhos toda vez que eu não podia estar presente em algum momento importante, quando eu não conseguia me enturmar com seus amigos (e olha, eu me esforçava), quando você deixava de viver pra viver a minha vida. Essa coisa de se anular não tava dando certo e foi naquela padaria quando eu peguei o troco que percebi que não podia fazer isso com você e não podia te deixar fazer isso consigo mesmo.
Você podia dizer o que fosse, mas nem precisava te encontrar na fila do pão pra saber que você tinha me encontrado e tava infeliz pra cacete. Você sumia tanto de si que eu quase tinha que me esforçar pra te encontrar. Talvez você não entenda agora e talvez nem daqui a 3 meses. Mas é que por sorte a gente se encontrou, o azar foi não ter sido no mesmo espaço-tempo.
E agora? Eu tô sofrendo feito mula. Eu tô chorando todo dia, eu lembro o tempo inteiro. Você fez o imenso favor de estampar seu rosto, seu perfume e sua risada nos meus hemisférios cerebrais. Mas ao contrário dos filmes românticos eu não posso ficar uma semana trancada no quarto chorando, abraçando sua camisa e cantando "Say something". Eu tenho que viver, não é verdade? E não é a história de superação bonita que a menina dá a volta por cima, ainda vai demorar muito pra isso acontecer. Prevejo várias recaídas, e quem sabe numa dessas você me segura e não me deixa ir.
Eu termino aqui, sem adornamento com clichês porque na vida real não tem promessas, não tem juras, na vida real, não tem pausa pra refazer a cena, nem contrarregra pra ajudar. Na vida real a gente tem que viver. E é isso que eu vou ter que fazer, viver sem você, desejando ardentemente que a nossa história fosse escrita pelo Sparks e que no final você aparecesse batendo na minha porta e dizendo o quanto eu fui burra. Mas não vai acontecer, não é mesmo? Não vai acontecer.
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Crônicas e Contos
20 janeiro 2015
Mesmo se nada der certo
Sobre o voto, bem, quero dizer, só pra tranquilizar seu pai, que vai dar certo. Que eu vou te cuidar, te amar, respeitar e tudo aquilo que o padre me pedir pra repetir. Mas hoje não é disso que eu vou falar. Falo-te hoje da contraponta, das desventuras, dos nós difíceis de desatar. Mesmo se nada der certo, amor, eu vou ficar. Ainda que tudo desmorone, que as certezas virem interrogações, eu já escolhi ficar. Fico, porque não teria para onde ir, e conjugo esse verbo em todos os tempos, pra você entender que nosso estado é de passado, presente e futuro. Eu fico, eu já fiquei. Afinal, como posso eu vagar se meu lugar sempre será aqui? No teu peito, ao teu lado. Mesmo se nada der certo e você gritar, se trancar no banheiro pra chorar ou bater a porta na minha cara, eu vou ficar. A vida a dois desgasta, machuca de forma recíproca, por vezes, sufoca. Mas eu te escolhi, entende? Dentre todas, dentre muitas, dentre o mundo, eu quis ficar aqui.
Peço-te hoje perdão futuro. Por qualquer coisa que sem intenção ou mal intencionado eu venha falar. Peço-te perdão pelas lágrimas que vou deixar cair, e eu sei que elas vão cair. Perdão pelas vezes que cansado posso não te perceber, perdão pela rotina e pela toalha que eu sempre vou deixar na cama.
Não quero que penses que esse é um discurso pessimista, vai dar certo. Mas mesmo se nada der certo, a gente volta, refaz o caminho, trilha a direção que nos leve um para o outro. A gente se reinventa, reconstrói nosso mundo e se preciso for, foge desse aqui.
Mesmo se nada der certo, eu escolhi, escolho e sempre vou escolher te amar. Em todos os tempos verbais, como o combinado. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até depois do fim.
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Crônicas e Contos
07 janeiro 2015
Lost
Acordei e não te senti, nem do lado esquerdo da cama
nem do lado esquerdo do peito. Procurei-te, olhei em todas as direções, quis te
achar no armário, embaixo da cama e nas roupas que não te pertenciam mas que ficaram
pelo carpete ontem à noite.
Sentei. Na tentativa de organizar os pensamentos,
reavivar mapas cerebrais e recordar onde eu havia te deixado. Por Deus... Será
que eu havia esquecido de te levar?
Refiz meus passos e tentei relembrar o último lugar
onde eu havia te visto, fiz juras a São Longinho e até tentei me perguntar em
que lugar eu me esconderia se fosse você. Foi nesse momento, e apenas nesse
momento, que pude perceber que se eu fosse você estaria em qualquer lugar,
menos aqui.
Olha, meu bem, de repente as coisas começaram a ficar sem sentido e eu fiquei confuso, me perdoa. Me perdoa porque eu não consegui segurar. Me perdoa por ter te deixado remar sozinha, quando eu deveria ter sido seu par. Eu tinha uma sensação de estranheza que nem ao menos sei denominar, coisa da minha cabeça, quisera fosse.
Eu te olhava e achava que não era onde eu deveria estar, eu te via sem te enxergar, eu te amava, mas parecia não poder continuar. Pensei ser crise e resolvi não pensar, mas perdurou por meses a fio e eu não conseguia mais te ver se trancando no banheiro pra chorar.
Foi então que eu te troquei pelo mundo e não percebi que sem você ele seria apenas mais um lugar. Eu deixei meu lar. O lar que fiz em seus braços, aconchegante, meu. Eu desfiz os nós que demos e acabei por me enrolar no meu ego. Talvez essa sensação nostálgica dure até a próxima batida na porta ou até o próximo corpo nessa cama, que não será o seu. E talvez, enquanto isso, eu arque com as consequências disso que criei, e siga, mesmo que a estrada não me leve a você.
Olha, meu bem, de repente as coisas começaram a ficar sem sentido e eu fiquei confuso, me perdoa. Me perdoa porque eu não consegui segurar. Me perdoa por ter te deixado remar sozinha, quando eu deveria ter sido seu par. Eu tinha uma sensação de estranheza que nem ao menos sei denominar, coisa da minha cabeça, quisera fosse.
Eu te olhava e achava que não era onde eu deveria estar, eu te via sem te enxergar, eu te amava, mas parecia não poder continuar. Pensei ser crise e resolvi não pensar, mas perdurou por meses a fio e eu não conseguia mais te ver se trancando no banheiro pra chorar.
Foi então que eu te troquei pelo mundo e não percebi que sem você ele seria apenas mais um lugar. Eu deixei meu lar. O lar que fiz em seus braços, aconchegante, meu. Eu desfiz os nós que demos e acabei por me enrolar no meu ego. Talvez essa sensação nostálgica dure até a próxima batida na porta ou até o próximo corpo nessa cama, que não será o seu. E talvez, enquanto isso, eu arque com as consequências disso que criei, e siga, mesmo que a estrada não me leve a você.
Eu te perdi e nem sei por onde começar a procurar,
quem sabe eu te ache quando eu me achar. É que me escondi, embarquei numa
realidade tão distante de mim que fui me desintegrando em partes,
em vendas fracionadas de mim mesmo. Me desfiz em pedaços tão intrínsecos que
além de me perder, te perdi. Agora estou aqui, num mundo que não me pertence;
assumo, mundo bonito, encantador, mas não é meu. Quem foi que disse que se
perder também é caminho? Ah, quisera Deus que você estivesse aqui pra me
desafogar de mim e me tirar dessa fantasia que criei meio a ilusões compráveis
e descartáveis. Quisera Deus que você voltasse, voltasse pra mim e me devolvesse,
me devolvesse pra mim. E olha, se ,por súbito, você se lembrar, deixe-me migalhas, amor. Migalhas para eu voltar.
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Crônicas e Contos
02 novembro 2014
Eu estava bem sem você. Ou não tão bem assim.
"Eu estava bem sem você". Dizia para mim mesma enquanto tentava olhar pela vidraça do ônibus ou me distrair com qualquer conversa aleatória de algum passageiro. Eu tentava, inutilmente, porque parecia que todas as coisas me faziam lembrar, desde as conversas sobre política entre o cobrador e um passageiro que acabara de ler uma notícia no jornal até a barba do cara do banco da frente. Mas olha, eu realmente deveria estar bem sem você. Não sei se melhor, não me arrisquei em mensurar isso. Mas é que antes eu estava segura, eu só precisava depender de mim, minha mente girava em torno de coisas que eu podia facilmente controlar, ou ao menos tentar. Acontece que com você é diferente, não tem como te controlar nem exercer qualquer poder de persuasão. Esse lance de coerção feminina, realmente não se aplica ao seu ego. Veja só, eu não consigo nem me controlar quando estou contigo, não tem como reter esse sentimento inundante que vem à tona toda vez que você sorri, aliás, que sorriso! Eu juro que de todos os sorrisos que eu já vi na vida, o seu continua sendo o meu preferido.
Uns meses antes de esbarrar com você por aí, eu me preocupava com as provas da faculdade, em não perder a hora para o trabalho, com as contas do cartão de crédito, o feijão que eu deixei fora da geladeira e em levar o cachorro ao veterinário. Agora eu me pego pensando quando você vai ligar, se por acaso nessa sua rotina doida você tira um tempo pra pensar em mim, se você leu minha mensagem no whatsapp, se vai querer me ver no próximo fim de semana...Antes eu sabia o tempo exato de deixar o lasanha no microondas, agora eu sempre esqueço porque me pego debruçada sobre a bancada rindo de algum vídeo idiota que você me mandou. Por Deus! Antes eu só lia os textos xerocados da faculdade e dia desses olhei para a cômoda e vi um volume imenso de "O mundo de Sofia". Olha bem, você tá entendendo meu espanto? Eu levantava da cama num salto e colocava a primeira roupa, aquele suéter capenga do dia que a gente se conheceu. Coringa, sempre meu. Agora até blush eu ando passando. Há uns meses nesse mesmo episódio, de um ônibus circular que vai dar a volta ao mundo antes de me levar ao trabalho, eu estaria ouvindo Guns no Ipod ou qualquer porcaria no rádio do celular, eu estaria até puxando assunto com a pessoa do banco ao lado. Mas agora eu tô aqui, pensando em você.
Meu bem, não foi a lasanha queimada, não foi o blush caro ou o livro de 560 páginas, foi o movimento. Você chegou e me tirou do eixo, tirou tudo do lugar, me bagunçou e nessa confusão eu nem sei onde deixei as chaves de mim mesma. Entende que eu tava acostumada com o habitual, com o cômodo, com mundo que eu criei só pra mim. Você simplesmente chegou e desmistificou todos os rituais mágicos que eu criei para me esconder, todas as armaduras que coloquei sobre mim pra não ter que me abrir mais com ninguém. Para não ter que me machucar mais com ninguém. Sabe qual foi o problema, meu bem? Ou quem sabe, a solução? Você chegou e me mostrou o amor. Você mostrou para esse coração machucado que tinha jeito pra ele. Você tirou os remendos e jurou ser o remédio. Você tirou meus pontos finais e acrescentou umas vírgulas pra eu poder olhar pra você, escrever sobre você, amar você.
Meu ponto. 2 horas de viagem e eu nem sei mais se estava tão bem assim sem você. Não sei se essa era uma certeza real ou algo que eu quis acreditar. Eu só sei que você chegou e me virou do avesso, e olha, agora eu tô torcendo para que o avesso seja meu lado certo.
Uns meses antes de esbarrar com você por aí, eu me preocupava com as provas da faculdade, em não perder a hora para o trabalho, com as contas do cartão de crédito, o feijão que eu deixei fora da geladeira e em levar o cachorro ao veterinário. Agora eu me pego pensando quando você vai ligar, se por acaso nessa sua rotina doida você tira um tempo pra pensar em mim, se você leu minha mensagem no whatsapp, se vai querer me ver no próximo fim de semana...Antes eu sabia o tempo exato de deixar o lasanha no microondas, agora eu sempre esqueço porque me pego debruçada sobre a bancada rindo de algum vídeo idiota que você me mandou. Por Deus! Antes eu só lia os textos xerocados da faculdade e dia desses olhei para a cômoda e vi um volume imenso de "O mundo de Sofia". Olha bem, você tá entendendo meu espanto? Eu levantava da cama num salto e colocava a primeira roupa, aquele suéter capenga do dia que a gente se conheceu. Coringa, sempre meu. Agora até blush eu ando passando. Há uns meses nesse mesmo episódio, de um ônibus circular que vai dar a volta ao mundo antes de me levar ao trabalho, eu estaria ouvindo Guns no Ipod ou qualquer porcaria no rádio do celular, eu estaria até puxando assunto com a pessoa do banco ao lado. Mas agora eu tô aqui, pensando em você.
Meu bem, não foi a lasanha queimada, não foi o blush caro ou o livro de 560 páginas, foi o movimento. Você chegou e me tirou do eixo, tirou tudo do lugar, me bagunçou e nessa confusão eu nem sei onde deixei as chaves de mim mesma. Entende que eu tava acostumada com o habitual, com o cômodo, com mundo que eu criei só pra mim. Você simplesmente chegou e desmistificou todos os rituais mágicos que eu criei para me esconder, todas as armaduras que coloquei sobre mim pra não ter que me abrir mais com ninguém. Para não ter que me machucar mais com ninguém. Sabe qual foi o problema, meu bem? Ou quem sabe, a solução? Você chegou e me mostrou o amor. Você mostrou para esse coração machucado que tinha jeito pra ele. Você tirou os remendos e jurou ser o remédio. Você tirou meus pontos finais e acrescentou umas vírgulas pra eu poder olhar pra você, escrever sobre você, amar você.
Meu ponto. 2 horas de viagem e eu nem sei mais se estava tão bem assim sem você. Não sei se essa era uma certeza real ou algo que eu quis acreditar. Eu só sei que você chegou e me virou do avesso, e olha, agora eu tô torcendo para que o avesso seja meu lado certo.
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Crônicas e Contos
25 outubro 2014
Do amor que eu não soube dar
Oi. Será que posso entrar? Quem sabe me acomodar um pouco? Nem precisa mudar as coisas do lugar. Será que tem espaço pra mim no seu novo mundo ou no seu novo flat? Tudo bem, não precisa responder, talvez eu esteja indo rápido demais, ou não, quem sabe. É que depois que você foi embora eu perdi um pouco a noção de espaço e tempo, e posso jurar que esse foi o dezembro mais longo que já vivi. Ah, o cachorro sente sua falta. Depois que o sol se põe ele corre em direção à porta, na esperança de ver você entrar. Eu também. O pernil esse ano não estava tão ruim, parece que minha mãe acertou dessa vez. Ela perguntou por você, sabia? Todos perguntaram. Eu disse que estava bem, sem nem imaginar por onde você andava. No dia 25 acordei me arrumando para ir a casa dos seus pais, mas quando punha as meias me dei conta de que não precisava mais viajar tantos quilômetros para compensar a véspera que a filha única não passou com eles. Não precisava, embora eu quisesse. Dessa vez para compensar a véspera que ela não passou comigo.
E eu entendi a resposta que você me deu quando perguntei o por quê você estava indo. "Você sabe". E olha amor, agora eu sei. Eu sei que não te deixei viver, sei que te fiz dependente de mim sem você querer. Te fiz refém das minhas escolhas, sem ao menos te perguntar o que você achava. Eu te levei, te carreguei sem perguntar se você olhava na mesma direção. Eu nunca perguntava, não é mesmo? Eu tinha tantas verdades, que acabei me afundando nelas. Eu sei também que eu era rude, exigente. Eu nunca tive filtros pra você, talvez o excesso de intimidade tenha corrompido minha empatia. E eu achava que você não se importava com as broncas, com as repreensões, eu fui burro, muito burro. Você não precisava de um pai, precisava de um amor. E eu aposto que hoje você deve estar deixando aquela louça do jantar pra amanhã, com preguiça e sem remorso. Aposto também que anda esbarrando nas coisas do seu jeito estabanada, murmurando por isso, mas aliviada por eu não estar lá pra te condenar.
Eu não reparava no seu rosto de ciúmes e nos seus olhos marejados quando eu tecia elogios para uma outra garota. Ah, quem dera fosse daqueles ciúmes bestas que toda mulher acaba tendo por insegurança ou "faro feminino", mas era um ciúmes com inveja. Porque eu tecia elogios ao mundo, menos a você. A você críticas, e ao mundo amor. Você era forte afinal, eu pensava. Você já sabia tudo que eu achava sobre você, eu acreditava. Mas você não precisava de alguém que medisse sua força e muito menos de alguém cujas palavras outrora ditas parecessem vazias e ocas frente as atitudes do presente. Você precisava de um amor, um amor que eu não soube ser nem soube dar.
Eu vim aqui hoje porque faltam poucos dias para o ano novo e eu não consigo nem imaginar como vai ser sem você. E vim de vermelho, que é pra dar sorte. Vim te pedir perdão, vim prometer não esperar ouvir novamente um "Você sabe", ver a porta bater, sentir sua falta no chuveiro e no lado vazio da cama, pra prestar atenção. Vim te convidar pra virar o ano comigo, na praia, no club ou no sofá. Pra fazer rituais idiotas e brindar com um champagne que a gente nem gosta de tomar. Vim te convidar pra tentar, de novo, e se errar, mais uma vez. Até que se esgotem as viradas. Eu vim aqui, pra te dizer que quebrando as correntes por aí, nesse ano novo eu não quero nada de novo, eu só quero você.
E eu entendi a resposta que você me deu quando perguntei o por quê você estava indo. "Você sabe". E olha amor, agora eu sei. Eu sei que não te deixei viver, sei que te fiz dependente de mim sem você querer. Te fiz refém das minhas escolhas, sem ao menos te perguntar o que você achava. Eu te levei, te carreguei sem perguntar se você olhava na mesma direção. Eu nunca perguntava, não é mesmo? Eu tinha tantas verdades, que acabei me afundando nelas. Eu sei também que eu era rude, exigente. Eu nunca tive filtros pra você, talvez o excesso de intimidade tenha corrompido minha empatia. E eu achava que você não se importava com as broncas, com as repreensões, eu fui burro, muito burro. Você não precisava de um pai, precisava de um amor. E eu aposto que hoje você deve estar deixando aquela louça do jantar pra amanhã, com preguiça e sem remorso. Aposto também que anda esbarrando nas coisas do seu jeito estabanada, murmurando por isso, mas aliviada por eu não estar lá pra te condenar.
Eu não reparava no seu rosto de ciúmes e nos seus olhos marejados quando eu tecia elogios para uma outra garota. Ah, quem dera fosse daqueles ciúmes bestas que toda mulher acaba tendo por insegurança ou "faro feminino", mas era um ciúmes com inveja. Porque eu tecia elogios ao mundo, menos a você. A você críticas, e ao mundo amor. Você era forte afinal, eu pensava. Você já sabia tudo que eu achava sobre você, eu acreditava. Mas você não precisava de alguém que medisse sua força e muito menos de alguém cujas palavras outrora ditas parecessem vazias e ocas frente as atitudes do presente. Você precisava de um amor, um amor que eu não soube ser nem soube dar.
Eu vim aqui hoje porque faltam poucos dias para o ano novo e eu não consigo nem imaginar como vai ser sem você. E vim de vermelho, que é pra dar sorte. Vim te pedir perdão, vim prometer não esperar ouvir novamente um "Você sabe", ver a porta bater, sentir sua falta no chuveiro e no lado vazio da cama, pra prestar atenção. Vim te convidar pra virar o ano comigo, na praia, no club ou no sofá. Pra fazer rituais idiotas e brindar com um champagne que a gente nem gosta de tomar. Vim te convidar pra tentar, de novo, e se errar, mais uma vez. Até que se esgotem as viradas. Eu vim aqui, pra te dizer que quebrando as correntes por aí, nesse ano novo eu não quero nada de novo, eu só quero você.
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Crônicas e Contos
28 setembro 2014
Acordei te amando mais
Acordei te amando mais. Não, não teve nada de especial na
noite passada e o tempo lá fora não parece ser um dos melhores. Mas é que hoje
eu acordei te amando mais. Num estado interno de plenitude que faz as circunstâncias
externas parecerem insignificantes. Sei que você não gosta de variações de
amor, afinal, se eu digo que cresce, outro diz que diminui. Então amor, faça o favor de traduzir pra mim
o que tá se passando aqui dentro. Traduz essa coisa abstrata e tão intensa que
eu nem sei mais se é amor ou outra coisa assim. Hoje eu acordei experimentando o
incondicional, hoje, quem sabe, eu iria a pé do Rio à Salvador.
Você não veio do jeito que eu esperava, muito menos como
queria e graças a Deus por isso. Imagina só, que catástrofe seria sem nossas
sutilezas do acaso, surpresas da fala e olhares que se calam. Seríamos mais um
dentre tantos amores, tantas histórias... Seríamos apenas mais uma história. E
é por isso que eu não consigo escrever sobre você, porque histórias de amor
de verdade não podem ser escritas. Ousar escrevê-las seria de tamanha audácia,
os detalhes se perderiam em meios as vírgulas e nem o mais romântico poeta
conseguiria resgatá-los. E que desastre seria! Se foram nos detalhes que você
me ganhou, nos “eu te amo” embutidos em gestos, no prazer do silêncio, nos SMSs banais enviados no dia a dia só pra compartilhar o bolo de chocolate que acabou
de comer, a música nova da rádio, o motorista que passou do ponto ou a senhora com um bebê no banco ao lado.
Talvez eu nunca te conte que numa segunda-feira às 7:00h eu acordei te
amando mais. É egoísmo, eu sei. Mas por mais que meu sorriso denuncie e como
constataram os irmãos até o pessoal da fila do pão já saiba, eu sei que esse
sentimento novo veio pra mim, e só. É que às vezes por mais que o amor transborde
ou que a emoção grite, abandonar o barco parece ser a opção mais simples. E é
preciso um empurrão, uma enxurrada de vigor que faça você acreditar novamente
no amor pelo amor e que as coisas que devem acontecer têm tempo determinado e ,
Deus sabe, não cabem a você.
Hoje eu acordei te amando mais, e acordei me amando mais
também. Porque te imaginar faz com que eu me veja pelos seus olhos, e eu enxergo o
que de melhor em mim você faz despertar. Hoje, apesar dos defeitos, apesar dos
medos, apesar da insegurança, apesar do mundo e apesar de mim, eu acordei te amando mais e nem o mal humor do motorista, suas teorias ou os poetas pessimistas seriam capazes de mudar isso.
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Crônicas e Contos
06 agosto 2014
Foi o excesso de você
Rapaz, não fica aí olhando para as fotos de vocês e se perguntando o porquê ela se foi. Nós dois, e qualquer pessoa que te conheça bem, sabemos o que aconteceu por aqui.
Talvez você não tenha notado, mas ela saiu pela porta da frente. Isso. Ela não fez questão de sair de fininho pela porta dos fundos, nem de tirar os sapatos. Ela saiu e pronto, sem disse-me-disse, sem meia-volta. Se agarrou a um surto de coragem e foi.
Pare de pensar que ela foi rude ou ingrata, você é a última pessoa do mundo que pode catalogar alguém assim. Ela te deixou sinais, por toda parte. Numa dissonância com a qual ela já estava familiarizada, escreveu seu adeus como quem quer ficar; aos poucos. Talvez na esperança de você a fazer mudar de ideia. Ponto pra você! Ela perdeu nessa jogada, você não fez, você nem ao menos notou. É que envolvido demais no seu mundo, absolvido por toda essa fantasia e imensidão tão sua, não conseguiu enxergar nada além de si mesmo.
Ela até que tentou, você tem que admitir. Ela tinha tudo para não te amar, mas amava simplesmente porque era amor. E amor é substantivo abstrato que quando se encontra, se conjuga até virar verbo. Eu sei, eu sei. Te dizer isso não te ajuda em nada, mas é que pelas minhas contas, você pode ter perdido a sua única chance de ser feliz. É que todas as outras desistiram ao menor sinal do seu ego inflamado, mas ela não, ela até tentou suportar. É.. bem lembrado, teve aquela ruiva da loja de Cds que mais parecia um papagaio, repetia tudo. Durou bastante se for contar seus relacionamentos descartáveis. Talvez tenha durado porque ela te deixou controlar tudo e ,acomodado, você se viu no seu habitat natural. Veja só, ela passou a torcer pelo Corinthians, e eu nem sei se o pai dela palmeirense descobriu isso antes dela mudar para o time do novo "affair". Ela ria de tudo, e já dizia Frejat que rir é bom, mas rir de tudo é desespero. Coitada, devia estar mesmo desesperada para achar que estava vivendo uma linda história de amor com você, era só mais uma que já tinha frequentado o sofá-cama da sala.
Mas ELA, ah... Ela não era parecida com as outras, não é mesmo? Muito menos com a ruiva. Ela nem gostava daquele sofá. Sabe qual eu acho que foi o maior sinal? O silêncio. Ela sempre foi de discordar de você, de entrar pela porta cantando e falar com qualquer besteira pra te arrancar um sorriso. Mas de uns tempos pra cá ela se calou. Ouvia você falar dos seus sonhos, do seu dia, com uma empolgação tão contagiante que ela quase se lembrava do porquê ela tinha se apaixonado por você. Mas limitava-se a esboçar um sorriso meio de canto. Ela te admirava, mas parece que no final de tudo, você só se tornou um saco de expectativas frustradas. Foi o excesso de você que acabou com o que vocês chamavam de "nós", você não abria espaço para serem juntos porque estava ocupado demais sendo só. E ela percebeu que se não fosse embora agora, não iria nunca mais. E foi. Pra onde? Não sei. Talvez esteja a procura de novos ares, novos amores, quem sabe até mudou de cidade e cursou aquele curso de gastronomia que ela tanto sonhava mas você nunca soube. Nunca soube porque foi o excesso de você que acabou com o que vocês chamavam de nós.
Ainda embalado por Frejat o que tenho a te dizer, meu rapaz, é boa sorte, e muito amor pra recomeçar! Porque ela? Ah.. ela tem amor de sobra e há de encontrar alguém para ser dois, para ser junto, para ser par. Sem excessos ou minorias de nenhum dos lados. Ponto pra ela!
Talvez você não tenha notado, mas ela saiu pela porta da frente. Isso. Ela não fez questão de sair de fininho pela porta dos fundos, nem de tirar os sapatos. Ela saiu e pronto, sem disse-me-disse, sem meia-volta. Se agarrou a um surto de coragem e foi.
Pare de pensar que ela foi rude ou ingrata, você é a última pessoa do mundo que pode catalogar alguém assim. Ela te deixou sinais, por toda parte. Numa dissonância com a qual ela já estava familiarizada, escreveu seu adeus como quem quer ficar; aos poucos. Talvez na esperança de você a fazer mudar de ideia. Ponto pra você! Ela perdeu nessa jogada, você não fez, você nem ao menos notou. É que envolvido demais no seu mundo, absolvido por toda essa fantasia e imensidão tão sua, não conseguiu enxergar nada além de si mesmo.
Ela até que tentou, você tem que admitir. Ela tinha tudo para não te amar, mas amava simplesmente porque era amor. E amor é substantivo abstrato que quando se encontra, se conjuga até virar verbo. Eu sei, eu sei. Te dizer isso não te ajuda em nada, mas é que pelas minhas contas, você pode ter perdido a sua única chance de ser feliz. É que todas as outras desistiram ao menor sinal do seu ego inflamado, mas ela não, ela até tentou suportar. É.. bem lembrado, teve aquela ruiva da loja de Cds que mais parecia um papagaio, repetia tudo. Durou bastante se for contar seus relacionamentos descartáveis. Talvez tenha durado porque ela te deixou controlar tudo e ,acomodado, você se viu no seu habitat natural. Veja só, ela passou a torcer pelo Corinthians, e eu nem sei se o pai dela palmeirense descobriu isso antes dela mudar para o time do novo "affair". Ela ria de tudo, e já dizia Frejat que rir é bom, mas rir de tudo é desespero. Coitada, devia estar mesmo desesperada para achar que estava vivendo uma linda história de amor com você, era só mais uma que já tinha frequentado o sofá-cama da sala.
Mas ELA, ah... Ela não era parecida com as outras, não é mesmo? Muito menos com a ruiva. Ela nem gostava daquele sofá. Sabe qual eu acho que foi o maior sinal? O silêncio. Ela sempre foi de discordar de você, de entrar pela porta cantando e falar com qualquer besteira pra te arrancar um sorriso. Mas de uns tempos pra cá ela se calou. Ouvia você falar dos seus sonhos, do seu dia, com uma empolgação tão contagiante que ela quase se lembrava do porquê ela tinha se apaixonado por você. Mas limitava-se a esboçar um sorriso meio de canto. Ela te admirava, mas parece que no final de tudo, você só se tornou um saco de expectativas frustradas. Foi o excesso de você que acabou com o que vocês chamavam de "nós", você não abria espaço para serem juntos porque estava ocupado demais sendo só. E ela percebeu que se não fosse embora agora, não iria nunca mais. E foi. Pra onde? Não sei. Talvez esteja a procura de novos ares, novos amores, quem sabe até mudou de cidade e cursou aquele curso de gastronomia que ela tanto sonhava mas você nunca soube. Nunca soube porque foi o excesso de você que acabou com o que vocês chamavam de nós.
Ainda embalado por Frejat o que tenho a te dizer, meu rapaz, é boa sorte, e muito amor pra recomeçar! Porque ela? Ah.. ela tem amor de sobra e há de encontrar alguém para ser dois, para ser junto, para ser par. Sem excessos ou minorias de nenhum dos lados. Ponto pra ela!
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Crônicas e Contos
18 junho 2014
BLOGAGEM COLETIVA: Eu, o frio, chorei
Eu chorei. De todas as pessoas, eu, o frio, chorei.
Chorei pela perda. Chorei por saber o quanto ela significa pra mim. Chorei a noite inteira por não conseguir segurar a tristeza em perdê-la. Chorei toda a madrugada, como uma criança, como nunca imaginei que choraria. Meu peito estava pesado, inundado e mesmo com o transbordar de toda essa tristeza em forma de lágrimas, não me senti melhor, mais leve, continuei preenchido por tudo aquilo e na verdade, ironicamente, eu estava mais vazio do que nunca. Sabe aquilo que sempre dizem que é melhor chorar, é melhor desabar e sentir a dor? Não, comigo não funcionou. Cada lágrima que deveria ser sinônimo de alívio, parecia me rasgar por dentro como os efeitos colaterais de um remédio mal dosado. Foi isso, tudo foi mal dosado. A minha dose dela foi demais e agora eu sofria os efeitos da abstinência.
Chorei pela perda. Chorei por saber o quanto ela significa pra mim. Chorei a noite inteira por não conseguir segurar a tristeza em perdê-la. Chorei toda a madrugada, como uma criança, como nunca imaginei que choraria. Meu peito estava pesado, inundado e mesmo com o transbordar de toda essa tristeza em forma de lágrimas, não me senti melhor, mais leve, continuei preenchido por tudo aquilo e na verdade, ironicamente, eu estava mais vazio do que nunca. Sabe aquilo que sempre dizem que é melhor chorar, é melhor desabar e sentir a dor? Não, comigo não funcionou. Cada lágrima que deveria ser sinônimo de alívio, parecia me rasgar por dentro como os efeitos colaterais de um remédio mal dosado. Foi isso, tudo foi mal dosado. A minha dose dela foi demais e agora eu sofria os efeitos da abstinência.
Ela se foi, mas deixou o cheiro, deixou as lembranças, deixou uma calcinha pendurada no banheiro. Ela se foi mas é como se eu a visse em cada detalhe daquele quarto. Ela se foi e eu não fiz nada. Eu a vi indo e a deixei ir, nós escorregamos um do outro e por medo ou por orgulho, eu não fiz nada. Eu não gritei o que sempre senti, e, mudo, a deixei partir. Naquela noite, eu chorei a dor. Eu senti a dor. Dor difusa confundia com o frio que só fazia aumentar, eu a senti latente, gritante e só esperava aquilo passar, parar, tudo voltar.
Mas com a chegada da manhã, não haviam mais lágrimas e mesmo que restasse eu faria questão de escondê-las e encararia o mundo com a máscara. Fingindo, omitindo, enganando até a mim mesmo talvez, mas eu no fundo sempre me lembraria que chorei e do quanto.
Mas com a chegada da manhã, não haviam mais lágrimas e mesmo que restasse eu faria questão de escondê-las e encararia o mundo com a máscara. Fingindo, omitindo, enganando até a mim mesmo talvez, mas eu no fundo sempre me lembraria que chorei e do quanto.
Eu, o frio, chorei
_"Lobo"
23 maio 2014
Mesa de bar
“Você”. Foi o que pensei quando naquela mesa de bar me
lançaram a palavra felicidade. “Infância”. Foi o que respondi por ser clichê. O
jogo seguiu, com algumas risadas, revelações, casos mal contados, mais um copo, amores desvendados e uma porção de petiscos.
Enquanto o lugar se movimentava, minha atenção se dividia em
cenas. Eu via os rostos sorrindo, a briga do casal da mesa ao lado quando o
cara olhou diferente para uma mulher qualquer que passou na sua frente. Uma
turma de universitários entusiasmados, a corrida dos garçons para dar conta de
todos os pedidos. Pergunto-me se os amigos que comigo estavam realmente
acreditavam nas minhas risadas e acenos de cabeça enquanto eles continuavam com
o jogo e conversavam sobre um assunto que eu não fazia ideia do que se tratava.
Creio que na hora eles não poderiam imaginar que, com uma palavra aleatória abriram uma gaveta que tinha um mundo dentro. E eu, sem resistir, me transportei
pra lá.
Um cara com a barba falhada e um tênis surrado subiu ao mini
palco montado a nossa frente, deveria ser o cantor da noite e provavelmente estava
ganhando uma miséria para estar ali. Tinha os olhos caídos, daqueles que dá a
impressão que a pessoa está sempre triste, mas ele tinha um sorriso bonito,
tinha no rosto uma incongruência harmoniosa, se é que isso existe. Pegou um
violão, disse seu nome, algumas poucas palavras e começou a tocar. Na primeira
nota eu já não pude acreditar, eu devia mesmo ter cumprido a promessa de nunca mais
dar uma trilha sonora aos meus amores. Parecia que tudo que as pessoas naquela
noite faziam, mesmo que de forma não intencional, me faziam lembrar você. Eu fui sentindo cada nota, ouvindo a melodia,
me entregando à música e por um instante tentando materializar as inúmeras
vezes que ao violão você tocou pra mim aqueles acordes, quando dançávamos no meio da sala e até mesmo quando eu pulava toda minha playlist pra ouvir aquela
música e lembrar de você.
Naquela noite eu te vi sem você estar lá, eu te ouvi sem
você falar. E já faz tanto tempo... Naquela noite, eu nos vi. Eu nos vi nos
sorrisos, na briga do casal da mesa ao lado, na turma de universitários
entusiasmados, no nosso “o de sempre” para o garçom. Hoje eu nem sei por onde
você anda, mas naquela noite, você estava naquela mesa de bar.
O cantor deu um intervalo e eu virei o copo de uma só vez,
na tentativa de engolir junto com a bebida aquela sensação que me invadia. Voltei
a jogar com um gosto de reencontro que eu só consegui resumir na palavra que
lancei quando chegou minha vez: “Saudade”.
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Crônicas e Contos
15 março 2014
Sobre pontes e despedidas
Eu criei pontes e ligações pra te fazer chegar, eu dei um passo além, passei dos limites que um diria eu juguei ter. Descobri, bem na alma, que nossas teorias se desfazem na prática, e olha, isso doeu um bocado.
Eu preciso voltar. Não me force a ficar, nem a continuar. Eu só preciso voltar, meu bem.
Não queira você parar por mim. Nem eu faria isso. Vá, vá em frente e não me ouça te pedindo pra ficar.
Prossiga, meu bem. E lá na frente, quando chegar, lembre-se de me ligar, de me dizer como estão as coisas por lá. Vá, meu bem. Não deixe que te impeçam de ir, apenas siga o caminho que você traçou. Siga isso que chamam de destino, mesmo que ele te distancie de do que chamamos de nós.
Se não for pedir muito, leva um pouco de mim em você. Me leva no seu abraço, tira de mim um pedaço pra me guardar, pra te guardar. Eu prometo não ocupar muito espaço. Prometo também que vou fazer o contrário, eu vou seguir o caminho inverso, não vou te levar comigo, vou te deixar pelo caminho. Entenda que não é por querer, é que você deixou muito por aqui e todo esse excesso de você dia desses vai me sufocar.
Vá, meu bem. Mas se doer demais, se o seu caminho sozinho for apenas só e solitário. Volta, volta e reconstrói as pontes, as ligações. Traz a memória o caminho de volta, o caminho que trilhamos até nos encaixar. Volta e reconstrói. Reconstrói o que eu perdi, quando te deixei ir.
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Crônicas e Contos
20 janeiro 2014
Sozinha a mesa
Na mesa da sala de jantar, depois de tanto tempo e de lutas internas, resolvi te reencontrar. Te reencontrar nas promessas de fim de tarde, nas juras sem fim. Nos momentos tão nossos que pareciam ser eternos. Olha, não vou negar, junto com as lembranças veio uma vontade invasiva de te ligar. Mesmo sem saber o que falar eu quis ouvir sua voz, lembrar do seu tom, do seu sotaque puxado e quem sabe assim, tirar a abstração que você deixou grudada na fronha do travesseiro, no armário do banheiro e no tapete da sala. Quem sabe assim, conseguir te materializar novamente longe de mim e parar de te ver em tudo, em todos. Ter a certeza de que passou e que agora você esta aí, dormindo com outra pessoa, cantando para outra pessoa, amando outra pessoa. E que eu virei apenas uma foto no fundo da gaveta e um passado bem vivido.
Mas eu não liguei. Eu não liguei porque por mais que eu precisasse de um grito da realidade me mostrando que havia acabado, eu gostava daquele martírio de te ter, mesmo que sem você saber, mesmo que sem ser.
Nesse jantar, sozinha a mesa, abri aquele vinho do Porto que você comprou para comemorarmos minha promoção no emprego. Não tinha o mesmo gosto ou então aquela ressaca amorosa tinha mexido com meu paladar.
Veja só, enchi minha taça e lembrei de você, metido a filósofo que era, me dizendo que o copo não estava nem meio cheio, nem meio vazio. Só estava na metade. Que tinha 50 % de chances para as duas possibilidades e que tudo dependia do nosso ponto de vista. Foi exatamente isso que você me disse quando eu fui embora.
Disse que as coisas tinham mudado, sua vida havia levado um rumo que nem você mesmo imaginava, mas que me garantia 50% e o restante só dependia de mim. Você me convidou a arriscar com você, mas acontece que eu nunca fui boa com probabilidades, eu precisava dos 100% totalmente seus, pra eu recriar o meu daí. Nunca gostei de me arriscar, então covardemente eu fugi. Fugi regada de um medo antecipado de coisas que poderiam acontecer. Eu não consegui te acompanhar, eu fui a fala do seu inconsciente, eu reproduzi as minhas frustrações nos seus olhos. Eu criei uma cena onde a porta de fuga parecesse ser a única opção.
Eu me deixei ir. Eu te deixei ir mesmo que eu não quisesse deixar e que você não quisesse partir. Eu te deixei ir por mais que meus olhos traíssem meus passos e que meu coração gritasse para eu voltar. Eu me deixei ir porque cega, não consegui enxergar um espaço para mim nesse seu novo mundo. Eu me retirei do palco por não querer ser coadjuvante e te deixei protagonista solitário na nossa própria peça.
E agora eu que estou aqui, sozinha a mesa, tomando o nosso vinho que ainda é nosso, mas está pela metade.
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Crônicas e Contos
17 novembro 2013
Só sei dançar com você
Você me encarou de longe, andou até a minha direção e me tirou pra dançar repleto de segundas intenções. Na verdade,
eu sempre me perguntei o porquê de você ter feito isso, mais tarde você diria
que foi por causa do meu sorriso. Que alguém que tivesse um sorriso daqueles no
mínimo se encaixaria perfeitamente no seu álbum de casamento. Eu lembro bem de todos olhando quando você me levou ao
centro da pista, sem cerimônias. Me fez ser o centro das atenções, quando na
verdade só a sua parecia bastar.
A música seguia numa melodia marcada a qual não
obedecemos. Nós dançávamos. Mas
dançávamos uma música nossa, uma música de dentro pra fora. Que fazia dos
passos uma sintonia que ia muito além das notas.
Você não pisou no meu pé, apesar de eu ter te dado algumas
joelhadas. Você me girava e rodopiava e vez ou outra parava pra sussurrar no
meu ouvido qual era o acorde que o tecladista tocava. Você sabia que eu não entendia nada
daquilo, mas era só uma desculpa para ficar mais perto de mim.
A música parou, mas parece que dentro de nós continuou.
Saímos da pista em silêncio, ou melhor, cantávamos por dentro. Você me pagou
uma bebida no bar, conversamos sobre seu país, sua família, seu dálmata e sobre
como o dólar tinha caído nos últimos meses. Você era transparente, com o mundo e consigo
mesmo. Você era só você e de um jeito único que dava vontade de pedir bis de
tudo aquilo.
Os garçons começavam a tirar a mesa e percebemos que era
hora de ir embora, por mim eu continuaria ali. Ouvindo você falar sobre tudo e
nada, só pra poder te olhar por mais alguns minutos.
Você disse que era músico, deu um bom sermão sobre a
desvalorização da profissão e disse que não tinha dinheiro pro táxi. Mas ainda sim, tirou as únicas três notas que tinha e pagou uma volta pra mim. Eu quis
recusar, mas você disse qualquer coisa que eu não consegui nem ao menos falar.
Eu voltei naquele lugar outras vezes, na esperança de te
encontrar. Mas foram noites vazias e nenhum daqueles rostos bonitos se parecia com você. Eu
tentei encontrar outros pares, dancei outros passos. Mas seja lá onde você
estiver, eu queria que você soubesse que eu não sei dançar sem você. Eu só sei
dançar a nossa música e ela não toca com mais ninguém.
Eu deveria ter pedido seu telefone, seu endereço, mesmo que
fosse do outro lado do Atlântico. Sei lá o que eu deveria ter feito, mas eu
deveria ter feito mais, quem sabe você poderia me deixar uma noite, um sorriso matinal e uma vida? Ao invés disso, você me deixou uma música. Uma
música que por mais que eu me esforce para dançar um solo ou com outrem, eu só sei dançar com você.
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Crônicas e Contos
07 novembro 2013
Escolha
É essa sua insegurança que me encanta. Esse olhar de canto que você tem, meio faceiro, meio tímido, meio só seu e de mais ninguém. É esse seu jeito que te faz única e eu fico pensando na sorte que tenho em te ter. É engraçado te ver escolhendo roupa e se maquiando só pra me agradar, mas será que você sabe o quão linda fica com aquele coque desarrumado e a minha blusa do Ramones? Será que você sabe que é o teu sorriso que te veste e ele é o vestido mais bonito do mundo?
Agora vê se entende que você não precisa girar o mundo pra
me fazer te notar. Eu sei que é difícil de acreditar, mas trabalhar com a ideia de
amor é pensar mil possibilidades que se colidem em uma única realidade. E você
foi a minha.
E se é pra falar de escolha, então vamos. Quando se acha a
resposta para todas as perguntas que você já fez na sua vida e elas se
convergem de uma forma que vai muito além do que você possa explicar, há de ser
real. Eu te escolhi, morena, porque foi maior do que eu. Maior do que a minha
vontade, maior do que o seu charme, maior até do que o bem que você me faz. Entende? Entende que foi maior que a gente? Coisa alguma que você pudesse fazer poderia diminuir ou aumentar isso. Então
para morena, para disso de achar que você foi só mais uma opção. Você foi minha
única escolha, desde sempre e para sempre.
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Crônicas e Contos
28 outubro 2013
Uma carta para depois
Eu não tenho o dom das palavras. Eu não consigo fazer com
que os períodos se ajuntem em uma única frase que possa expressar seja lá o que
for que eu esteja sentindo no momento. Eu desconheço figuras de linguagem e passo bem longe
da semântica. Eu não tenho o dom das palavras, não sei persuadir, não sei dizer
em frases de efeito coisas tocantes e, tão pouco, coisas que façam
refletir.
Eu queria, eu bem queria poder
expressar com conjunções e preposições o que tá aqui dentro e parece me
sufocar. Quando a gente fala, a gente se liberta. Involuntariamente, organizamos
nossos próprios pensamentos. Mas eu não tenho o dom das palavras, eu não sei
fazer prosa ou poesia pra dizer pra você, amor, que eu te quero por perto.
Eu já tentei parafrasear e até rimar, mas meu bem, que coisa difícil é essa de traduzir o que a gente grita por dentro. Dizem que o amor é um sentimento grande demais pra se colocar em versos, e eu me apoio nessa desculpa pra não precisar falar. Eu sei que palavras não amam ninguém, mas pra quem ama talvez elas não devessem ser tão difíceis de se pronunciar.
Eu quero gritar ao mundo e tirar isso do mudo. Mas eu não
tenho o dom das palavras. Eu fico aqui nessa agonia, nessa coisa louca de
tentar fazer você me entender, me ler, me compreender sem que eu precise
usar-me de verbos de ligação.
Eu não gosto desse jogo de caça-palavras em que estamos, onde eu dou as pistas e você tenta descobrir o que está se passando na minha cabeça. Eu não quero fazer disso um jogo e muito menos um fardo. Eu não quero ser como palavras cruzadas, com casinhas contadas pra te falar o que eu sinto.
Me perdoa por este texto desconexo, essa carta mal formulada que nem a data está datilografada. São apenas palavras soltas, que relatam sentimentos bem presos.
Por fim, amor, saiba que de todas as palavras do mundo, de todas as frases e de todas as expressões, eu espero que nenhuma delas equivalha ao meu “eu te amo.” Que às vezes sai engasgado, quase que rasgando a garganta, mas não por ser forçado, claro que não! Mas porque é forte. É forte demais para ser guardado.
Por fim, amor, saiba que de todas as palavras do mundo, de todas as frases e de todas as expressões, eu espero que nenhuma delas equivalha ao meu “eu te amo.” Que às vezes sai engasgado, quase que rasgando a garganta, mas não por ser forçado, claro que não! Mas porque é forte. É forte demais para ser guardado.
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20 setembro 2013
Overdose
Não foi numa noite de sábado, após uma festa, no banheiro e
com a maquiagem borrada. Foi numa tarde de domingo, quando você me metralhou
com aquelas palavras que pareceram perfurar alguma parte do meu pulmão porque
eu juro, meu bem, eu juro que fiquei uns minutos sem ar.
Você foi um canalha da pior categoria, mas eu não posso
reclamar de nada, porque eu sabia. Eu sempre soube e você não fazia questão de
esconder, pelo contrário, fazia-me lembrar a cada momento. Sempre soube que a gente não combinava, sempre
soube que você era meio lá e eu meio cá. Mas eu quis me enganar. Tomei pra mim
esse amor inventado, idealizado, que só existia no meu faz de contas frustrado.
Talvez muitos me achem sadomasoquista, mas não é bem assim. Eu só alimentei
uma expectativa furada de que um dia você visse o melhor de você em mim, que
você fosse acordar no meio da noite, assim como num estalo e perceber que iria
me amar pra sempre. Eu depositei sobre seus ombros uma felicidade que era minha
e justamente por ser minha, o papel de encontrá-la era incumbido a mim e não a
você.
E pode parecer contraditório, mas quanto mais você se afastava,
mais eu te queria. Alguém pode me dizer que merda de sentimento é esse? Era
como droga, isso! Droga. Você era meu vício e eu sabia que me fazia mal, que
como num efeito lúdico ao estar do seu lado o universo parecia estar
perfeitamente alinhado, mas isso só durava até você ir embora e me deixar na
esquina da minha casa como se nada tivesse acontecido, como se a gente não
tivesse acontecido.. Mas eu me contentava, eu me contentava com as migalhas e
sobras que você deixava. Com o pouco que você podia me oferecer, mesmo que eu
passasse o resto da noite chorando no travesseiro como uma perfeita idiota. Mesmo que eu passasse o
restante da noite fazendo a mim mesma
promessas vazias de que nunca mais te veria e no minuto seguinte te mandar um
SMS.
Dependência de você. Você foi meu vício e o pior deles. Eu me perdi, me
perdi e como foi difícil me reencontrar. Todos me avisavam que eu deveria parar, que você não era meu remédio, era meu fardo. E o pior foi que eu criei isso
tudo. Você não pediu pra eu me apaixonar, você nem ao menos fazia questão de
ser agradável ao meu lado. Eu fantasiei tudo, eu fui seguindo seus rastros e
esqueci-me de marcar os meus.
O seu erro meu bem, o seu único erro foi sempre
voltar. Você me dava doses mínimas de você e eu
sempre queria mais. Você deveria ter parado de me ligar na sexta à
noite, deveria ter devolvido a chave do meu flat, me excluído das redes
sociais, da lista do Black Berry e evitar qualquer sinal de fumaça que eu tentasse fazer pra me comunicar com você.Você só deveria ter sumido e me deixado entrar em abstinência. Eu iria me
desintoxicar de você, não te ver seria minha reabilitação. Você deveria ter
dado o basta que eu não conseguia dar, você demorou demais. Delongou o adeus e
prolongou meu sofrimento, mesmo sabendo que não daria em nada.
Não foi numa noite de sábado, após uma festa, no banheiro e
com a maquiagem borrada. Foi numa tarde de domingo, na sacada da varanda que eu
me desintoxiquei de você. Depois das palavras metralhadas, da porta fechada e
de algumas lágrimas no assoalho eu respirei fundo, como se buscasse todo ar que
poderia haver nos meus pulmões. Esses mesmos que você havia perfurado minutos
antes. Mas se você sabe o que é isso, se já passou a noite toda acordado e
chorou até acabarem as lágrimas. Então sabe que, no fim, desce sobre a gente
uma grande calma. Chegamos até a ter a sensação de que nada mais nos poderá
acontecer. E foi exatamente aí que eu abri os olhos e em súbito conclui que já
era chegada a hora daquela overdose acabar.
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Crônicas e Contos
27 agosto 2013
Quando nossos mundos colidiram
Eu ouvi o estrondo da colisão, mas eu ouvi antes de tudo. Eu
ouvi as fagulhas e as partículas se desintegrando e dispersando aos poucos. Os
gases se dissiparam e começaram a formar qualquer coisa que eu não pude evitar.
Eu percebi, que a colisão dos nossos mundos não tardaria a chegar.
Eu sempre me preparei pra isso, podem até me chamar de
pessimista, mas é que têm dores que não suportaríamos sentir novamente. Eu me
preparava e tentava me desapegar de você mesmo estando perto, mesmo estando
junto. Contraditório, eu sei. Mas era meu jeito de tentar me prevenir, eu não
fui de cabeça, mesmo você me oferecendo o capacete.
Só que nesse meu chove não molha, eu cedi. Eu me envolvi de
tal forma, eu acreditei que tudo era diferente. Em um mundo feito para nós,
fomos duas possibilidades que colapsaram em uma. Nós fomos , como diriam os
físicos quânticos, um experimento vivo de dupla fenda. Você me persuadiu com o
seu jeito e eu achei que só por ser você, seria diferente. Mas não foi. Eu
deixei pra trás os meus medos e as minhas inseguranças e me entreguei. Mas eu
perdi.Te perdi e me perdi, também.
Eu não te julgo, não mesmo. Pude ver o esforço que você fez,
que nós fizemos. Tentamos em vão entrar um no mundo do outro e nessa
brincadeira, nessa coisa de renegar a si e querer outrem, nós esquecemos quem
éramos. Esquecemos até mesmo o porquê estávamos aqui.
E eu esperava algum sinal do Cósmos ou de qualquer força superior, que me dissesse o que fazer, que me dissesse em qual órbita deveríamos nos encaixar. Mas têm certas coisas que somente nós podemos nos posicionar, somente nós podemos decidir.
E eu esperava algum sinal do Cósmos ou de qualquer força superior, que me dissesse o que fazer, que me dissesse em qual órbita deveríamos nos encaixar. Mas têm certas coisas que somente nós podemos nos posicionar, somente nós podemos decidir.
Agora você tá indo e os nossos mundos colidiram. Nós que
achávamos que as diferenças nos uniriam, viramos prova viva de que elas nos
separaram. Nos levaram pra lugares distantes, distintos e longe. Longe um do
outro. Eu queria tanto que desse certo, queria tanto continuar sendo sua
pequena e ouvindo você cantar baixinho pra mim a nossa música. Mas a gente se
deixou levar, você cansou e eu não pude evitar.
Agora você foi. Você se foi e levou consigo um pedaço
gigante do meu mundo. Um pedaço que já era seu e se perdeu na colisão. Olha
amor, eu não sei mais viver sem esse pedaço, eu não sei mais viver sem ter o
seu mundo do meu lado.
Lembra vai, lembra que o plano era construirmos um mundo só
nosso. Onde opiniões, conceitos, paradigmas e meteoros não nos atingiriam.
Lembra que você disse que eu iria ser sua, lembra que eu quero cumprir essa
promessa.
Eu não sei o que esperar do agora. Talvez eu ainda fique na
inércia, porque fazer uma rotação neste momento seria suicídio. Se um dia você
sentir falta, se um dia você quiser fazer do meu mundo o seu e do seu o nosso,
eu to aqui. Na mesma órbita, esperando essa colisão passar.
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